domingo, 12 de agosto de 2007

Hiroshima

Manhã
Eles sonham:
Um trabalhador sonha, baixando a picareta,
o suor transformado em cicratizes pelo clarão.
Uma esposa sonha, dobrada sobre a máquina
de costura, entre o odor doentio
da sua pele aberta.
Uma empregada de bilheteira sonha,
as suas cicratizes escondidas,
como pinças de caranguejo, nos dois braços.
Um vendedor de fósforos sonha,
com pedaços de vidro partido cravados no pescoço.
...
Eles sonham:
Que através de um elemento obtído
a partir da pechblenda e da carnotite,
mediante uma interminável cadeia de energia,
desertos estéreis sejam transformados
em campos férteis;
Canais brilhantes corram em redor da base
de montanhas que se desagregam,
sob sóis artificiais nos desertos do arctico.
Que sejam construídas cidades e vilas de ouro puro.
...
Eles sonham:
Que bandeiras festivas tremulem
à sombra das árvores, onde os trabalhadores repousam
e as lendas de Hiroshima
são contadas por lábios suaves.
...
Eles sonham:
Que esses suínos com forma de homem
que não sabem utilizar o poder
do centro da terra senão para a carnificina,
apenas sobrevivam em livros ilustrados
para as crianças.
Que a energia de dez milhões de cavalos-vapor
por grama, mil vezes mais forte
que um poderoso explosivo,
passe do átomo para as mãos do povo.
Que a colheita rica da ciência
seja levada, em paz, ao povo
como cachos de uvas suculentas
húmidas do orvalho
apanhadas
ao amanhecer.
Sankichi Toge

2 comentários:

Carla disse...

Adorei, um lindo Poema.

Joaquim Santos disse...

Excelente !!!